Trabalho

 

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Na noite desta segunda-feira (25), a Avenida Paulista voltou a ser palco de uma demonstração de força da classe trabalhadora brasileira. Milhares de pessoas protestaram pelo fim da escala 6×1 e pela redução da jornada de trabalho de 44 para 40 horas semanais, sem qualquer corte de salário — e, acima de tudo, sem transição.

O ato, organizado por partidos, centrais sindicais e movimentos sociais, contou com participação destacada da Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil (CTB) e do movimento estudantil, que marcharam juntos por cerca de duas horas desde o Museu de Arte de São Paulo (Masp) até a Praça Roosevelt, no final da Rua Augusta.

A data não foi escolhida por acaso. Enquanto os trabalhadores ocupavam as ruas, a Comissão Especial da Câmara dos Deputados, em Brasília, analisava o parecer do relator sobre a PEC 221/2019 — a proposta que pode extinguir definitivamente a escala de seis dias de trabalho por apenas um de descanso. A pressão das ruas e do Congresso se encontravam, mais uma vez, no mesmo momento histórico.

“Transição não”: as ruas rejeitam a espera

Aos gritos de “transição não”, os manifestantes reagiam ao acordo anunciado mais cedo pelo presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), que prevê uma implementação escalonada das mudanças: fim da escala 6×1 e redução de 44 para 42 horas em até 60 dias após a promulgação da PEC; e mais duas horas reduzidas — chegando às 40 horas semanais — somente após 12 meses. Sem redução salarial, pontos que Motta classificou como “inegociáveis”.

O presidente da CTB Nacional, Adilson Araújo, que acompanha de perto os debates na Câmara dos Deputados e reforçou a importância da mobilização popular nesta etapa decisiva da tramitação da proposta. “Há uma necessidade imperativa de seguir a vigília, de fazer com que a gente possa exercer a devida pressão sobre os deputados e deputadas, para que a gente possa consagrar esse direito tão ambicionado pela classe trabalhadora. Sentimos que há uma disposição e é verdade que a sociedade se levantou na medida em que 70% da população manifesta apoio favorável ao fim da extenuante, da tão exaustiva, escala 6×1.”, avaliou o dirigente.

A proposta que avança — e o que ficou pelo caminho

A proposta que caminha para aprovação representa, segundo o Fórum das Centrais Sindicais, uma vitória histórica. Mas é importante registrar que a proposta original defendida pelos movimentos previa uma jornada de 36 horas semanais e a adoção da escala 4×3, com três dias de folga por semana — modelo que já vem sendo implementado em países europeus. O que se aprova agora é a escala 5×2 e 40 horas semanais, com transição de 12 meses.

Motta anunciou ainda que o governo deve enviar projeto de lei complementar para facilitar a contratação por microempreendedores individuais (MEIs), como forma de mitigar impactos sobre o mercado de trabalho com a redução da jornada. “Hoje, esses empreendedores só podem empregar uma pessoa com carteira assinada. A nossa ideia é avançar, permitindo que esses empreendedores possam contratar mais pessoas, já que estamos reduzindo a jornada de trabalho”, afirmou.

A votação na comissão especial, prevista para a última segunda, foi adiada após parlamentares da extrema direita pedirem vistas para retardar a apreciação. A nova data ficou marcada para quarta-feira (27), com expectativa de votação no plenário da Câmara ainda nesta semana. Se aprovada, a PEC segue para o Senado.

PM dificulta manifestação e cala voz do PCdoB

A Polícia Militar de São Paulo, mais uma vez, cumpriu o papel de dificultar o exercício do direito constitucional à livre manifestação e à organização dos movimentos sociais.

Durante o ato de ontem na Paulista, a PM dificultou o fechamento da avenida, pondo em risco a segurança dos manifestantes ao não garantir o isolamento adequado do trecho percorrido. A omissão deliberada expôs os trabalhadores a situações de perigo durante a marcha.

Mas o cerceamento não parou por aí. Ao longo de todo o trajeto, os policiais impediram que o caminhão de som parasse para que as lideranças pudessem subir e descer durante as falas — prática corriqueira e necessária em atos dessa natureza, que garante a participação e a pluralidade de vozes. A medida impediu que Lídia Corrêa, vice-presidenta do PCdoB São Paulo, discursasse em nome do partido, tendo sua fala suprimida pela ação policial.

Calar a voz de uma liderança num ato de trabalhadores não é coincidência — é método. A atuação da PM reacende o debate urgente sobre o uso sistemático da força pública para constranger, intimidar e fragmentar a organização popular.

Por que essa luta importa

A escala 6×1 não é apenas um modelo de trabalho — é uma estrutura de controle social. Ela recai com mais peso sobre os trabalhadores mais pobres: os que enchem as filas dos supermercados como repositores, os que limpam os prédios antes do amanhecer, os que atendem telefonemas em centrais de telemarketing, os que guardam portões durante a madrugada.

Para essa parcela da população, o único dia de folga semanal — muitas vezes móvel — não é descanso. É o dia de lavar roupa, pagar conta, recuperar o corpo para aguentar mais seis dias. Especialistas chamam esse fenômeno de “pobreza de tempo”, que é a privação do direito de viver além do trabalho. Pais que não veem os filhos crescerem. Jovens que abandonam os estudos porque a escala inviabiliza a frequência regular na escola ou faculdade — perpetuando o ciclo da baixa qualificação e dos baixos salários.

Os dados de saúde pública confirmam: o adoecimento por burnout, depressão e ansiedade, bate recordes entre os trabalhadores da base da pirâmide. A experiência internacional, por sua vez, demonstra o contrário do que diz o empresariado: trabalhadores descansados faltam menos, produzem mais e adoecem menos.

A semana decisiva

Os movimentos seguem mobilizados. A votação na comissão especial está marcada para esta quarta (27), e a expectativa é de aprovação no plenário da Câmara ainda antes do fim de semana. O Senado, sob a presidência de Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), também sinalizou disposição para tramitar a matéria.

As ruas já deram seu recado. Agora é a vez do Congresso responder ou revelar, de vez, a quem serve.

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com informações de agências

VERMELHO

https://vermelho.org.br/2026/05/26/trabalhadores-tomam-as-ruas-pelo-fim-imediato-da-escala-6x1/