Setembro Amarelo: relato de jovem mostra como a ansiedade se esconde em situações do cotidiano

Campanha chama atenção para a saúde mental e para a importância de reconhecer sinais de sofrimento, acolher e buscar ajuda

PorByanca Santos - Especial para O Imparcial20/set/2026 · 12h017 min de leituraSetembro Amarelo (Foto: Reprodução)

Esperar um ônibus. Receber uma mensagem de alguém dizendo que precisava conversar. Lidar com uma situação aparentemente simples do cotidiano. Para quem está de fora, nada disso parece representar uma ameaça. Para Gabriel Veloso, de 21 anos, durante um período, essas situações eram suficientes para despertar a sensação de que algo ruim estava prestes a acontecer.

A ansiedade foi ocupando espaços cada vez maiores na rotina do jovem até interferir na relação com os pais, com a namorada, no trabalho e na maneira como ele enfrentava situações comuns do dia a dia. “Eu sempre imaginava que ia acontecer alguma coisa muito ruim. Então, por conta disso, eu nunca conseguia ficar calmo, nunca conseguia ficar relaxado”, conta.

Nem sempre o sofrimento emocional chega acompanhado de um sinal evidente. Muitas vezes, ele aparece aos poucos, interfere nas relações, no trabalho, nos estudos e até em momentos que, para outras pessoas, parecem banais. Foi perceber esse impacto na própria vida que fez Gabriel entender que precisava de ajuda.

A mudança começou no ano passado, quando decidiu cuidar da saúde mental de forma mais efetiva. Desde então, os pensamentos intrusivos diminuíram, a produtividade voltou e relações que haviam sido afetadas pelo período de maior ansiedade começaram a ser reconstruídas.

“Tenho parado, raciocinado com calma, para deixar essas coisas menos urgentes passarem e me concentrar no que realmente é preocupante e precisa da minha atenção”, relata.

Nesse processo, a rede de apoio também teve um papel importante. Pais, amigos e a namorada estiveram presentes tanto no incentivo para que ele buscasse tratamento quanto no acolhimento cotidiano.

“Enquanto eu tiver essa motivação deles, eu sei que não vou desistir, porque eles vão estar lá por mim”, afirma.

A história de Gabriel ajuda a trazer para perto um assunto que, embora esteja cada vez mais presente no debate público, ainda é cercado por silêncio, medo e desinformação. É justamente para ampliar essa conversa que, todos os anos, o mês de setembro ganha a cor amarela

"Eu sempre imaginava que ia acontecer alguma coisa muito ruim. Então, por conta disso, eu nunca conseguia ficar calmo"

Uma campanha que nasceu de uma história

O Setembro Amarelo existe no Brasil desde 2015, quando a Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP), em parceria com o Conselho Federal de Medicina (CFM), trouxe para o país uma mobilização que já havia começado décadas antes, nos Estados Unidos.

A história remonta a 1994, quando Mike Emme, de 17 anos, morreu por suicídio. No funeral, os pais distribuíram fitas amarelas entre os presentes. A cor fazia referência ao Mustang amarelo que pertencia ao jovem e acabou se transformando em símbolo de uma mobilização pela prevenção do suicídio.

Daquele gesto nasceu o Programa de Prevenção ao Suicídio Fita Amarela, que posteriormente se tornou um movimento de conscientização conhecido internacionalmente.
A escolha de setembro também não é por acaso. O dia 10 é marcado pelo Dia Mundial de Prevenção ao Suicídio, instituído pela Organização Mundial da Saúde (OMS) e pela Associação Internacional para Prevenção do Suicídio (IASP). A data busca chamar a atenção de governos, profissionais de saúde e sociedade civil para um problema que continua sendo uma questão de saúde pública.

Os números por trás do silêncio
As estimativas da OMS apontam que mais de 700 mil pessoas morrem por suicídio todos os anos no mundo. Isso representa, aproximadamente, uma morte a cada 40 segundos. Entre jovens de 15 a 29 anos, o suicídio está entre as principais causas de morte e aparece como a quarta principal causa nessa faixa etária.

No Brasil, dados oficiais de saúde também registram milhares de mortes anuais por essa causa. Parte desses casos está relacionada a situações que podem ser prevenidas ou enfrentadas com diagnóstico, acolhimento, acompanhamento profissional e acesso adequado aos serviços de saúde.

Mas os números representam apenas uma parte da história. Antes de uma situação de crise, existe, muitas vezes, um processo de sofrimento que não aparece nas estatísticas e que pode ser percebido por quem convive diariamente com aquela pessoa.

Quais sinais pedem atenção

Para o psicólogo Marcello Lopes, histórias como a de Gabriel ilustram um ponto central: raramente alguém em sofrimento emocional vai dizer isso abertamente. É preciso observar mudanças de comportamento, isolamento social, perda de interesse por atividades antes prazerosas, alterações no sono e no apetite, irritabilidade, sensação de desesperança e, em casos mais graves, falas sobre morte ou sobre a vida ter perdido o sentido.

Ainda assim, o psicólogo faz uma ressalva importante, somente esses sinais não devem ser usados para tentar diagnosticar alguém. “Cada pessoa vivencia o sofrimento de uma maneira, e muitas vezes o que aparece externamente é apenas uma parte do que ela está enfrentando”, explica Marcello.

O papel de quem está próximo

Família e amigos costumam ser a primeira rede de apoio disponível para quem está passando por um momento difícil. Segundo o psicólogo Marcello Lopes, uma escuta genuína, sem julgamentos e sem a pressa de encontrar soluções prontas, pode fazer diferença nesse processo. Frases como “isso é falta de vontade” ou “tem gente passando por coisa pior”, por outro lado, podem aumentar a sensação de solidão e fazer com que a pessoa se sinta ainda menos compreendida.

Algumas atitudes simples podem fazer diferença para quem está passando por um momento difícil. Perguntar como a pessoa está, mostrar que ela não precisa atravessar aquele momento sozinha e respeitar o tempo dela para falar são formas de oferecer acolhimento. Quando possível, também é importante oferecer ajuda concreta, como acompanhá-la a uma consulta ou simplesmente permanecer por perto.

Saúde mental exige atenção contínua

Embora o Setembro Amarelo tenha um papel importante na ampliação do debate sobre saúde mental, a atenção ao tema não deve se restringir ao período da campanha. O sofrimento psíquico pode estar presente em diferentes momentos da vida e relacionado a fatores como condições de trabalho, relações familiares, perdas, desigualdades sociais, violência e isolamento. Por isso, a prevenção e o cuidado precisam ser compreendidos como ações contínuas, que ultrapassam o mês de setembro.

Falar sobre saúde mental nos doze meses do ano, defende Marcello, é o que permite construir uma cultura permanente de cuidado e escuta, capaz de combater o estigma que ainda faz muita gente ter vergonha ou medo de procurar ajuda.

“Precisamos deslocar a discussão de uma lógica em que só procuramos ajuda quando o sofrimento chega ao limite”, pondera o psicólogo. Cuidar da saúde mental é, também, abrir espaço para que as pessoas falem sobre o que sentem antes que isso se torne insustentável.